quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sobre o concurso do magistério...


Muito tem se falado na mídia e nas redes sociais sobre a altíssima proporção de candidatos reprovados no último concurso do magistério estadual no Rio Grande do Sul. De posições bem ao estilo Lasier Martins, afirmando que esse alto índice de reprovação só mostra como os professores são pessimamente formados e que isso se reflete na péssima qualidade do ensino público (desculpa, Lasier, mas vai conhecer um pouco mais a fundo o ensino público e saber onde realmente estão os problemas. Sobre a formação dos professores, num próximo momento, eu escrevo sobre isso aqui) até o pessoal mais pragmático afirmando que uma prova que reprova mais de 90% dos candidatos não pode estar correspondendo com a realidade. De críticas aos professores a críticas as provas, muitos se esqueceram de olhar para a própria questão em debate: o ensino público.
Com certeza diversos fatores levaram a reprovação em massa. Mas sabe qual eu acho o mais importante? O de que a profissão de professor está se tornando cada vez mais desinteressante... Por que isso? Porque eu acredito que 80%, pelo menos, das pessoas que foram lá fazer o concurso o fizeram por tabela, só por fazer. Alguém realmente vai se dedicar a estudar para um concurso e ficar feliz em receber menos de R$ 800,00 e ainda trabalhar em um sistema educacional como o do estado do Rio Grande do Sul que só não está morto por falta de quem decrete a morte anunciada? Muitos desses que passaram não vão trabalhar por muito tempo na rede estadual, muitos vão continuar fazendo concursos melhores, vão passar e vão evadir. Esse não é o último concurso da vida desses professores. E agora, por que se matar estudando se todos já tem consciência que vai ser algo passageiro, até algo melhor aparecer? Não há tesão, não há vontade de se dedicar, não há muita felicidade em ser aprovado em um concurso que vai te levar a um emprego que remunera mal, que apresenta condições extremamente precárias de trabalho, que a população em geral e, principalmente, os "nossos governantes" não dão o menor crédito.
É só ver os concursos da área jurídica, por exemplo. Em nenhum desses o salário do candidato aprovado e convocado ao trabalho é menor do que R$ 3.000 ou R$ 4.000 e isso levando em conta que exigem escolaridade básica somente. Se formos olhar para aqueles concursos de diversas áreas que exigem formação superior, esse valor pode chegar a números bem mais altos. E são nessas carreiras que há uma penca de “concurseiros”, gente se matando de estudar, pagando cursinhos caros e estudando por anos e anos a fio. É uma questão de matemática econômica: vale a pena gastar R$ 2.000 em um cursinho que te prepara para uma carreira que tu vai ganhar pelo menos o dobro disso por mês. E será que vale a pena investir mais dinheiro (além de todo aquele gasto na formação superior – faculdade, livros, Xerox, alimentação, transporte, etc.) em um concurso que vai te remunerar tão cretinamente? Eu mesmo comprei uma apostila de R$ 40,00 para estudar porque estava desesperado, sem emprego e sem grana. Mas assim que fui chamado a trabalhar em Guaíba, atirei pro alto esse concurso do estado. O fato de ter passado talvez tenha sido uma mera coincidência.
Enfim, já estou me alongando em um texto que era só para ser uma resposta a um comentário no Facebook. Para resumir, acho que sim, as faculdades não preparam os estudantes para a vida de professor. Mas a função da faculdade não deve ser aprovar os estudantes em provas de concursos que todos sabemos que são baseadas em modelos bem ultrapassados e em uma decoreba desgraçada. A prova foi, sim, horrivelmente formulada. Até agora não entendi direito a distribuição do número de questões e do valor de cada uma (sendo que as questões específicas eram em menor número e tinham o menor valor na composição da nota). Mas o pior de tudo, no meu ponto de vista, é como isso reflete o desinteresse geral que atingiu até mesmo o grupo que é o último a abandonar o barco da educação – os professores – quando se trata do magistério estadual do Rio Grande do Sul. Se liga, governo, daqui a pouco não vai ter mais ninguém interessado em trabalhar nas escolas estaduais...

domingo, 20 de maio de 2012

Fica a dica

Fiquei muito feliz ao abrir o Facebook no meio da tarde de hoje e ver um link publicado por uma amiga. Era o link do Era uma vez na escola, blog da minha grande amiga e colega de faculdade e profissão, Laura.
Ela tem sido um ponto de apoio muito importante na minha experiência docente, me dando uma força gigantesca desde o começo da minha jornada.
Vai ser bem legal ter a Laura e seu blog como interlocutores do Dia de Professor. Por várias e várias razões, sugiro a leitura e o acompanhamento do Era uma vez na escola.

Outra hora volto com novidades.
Boa semana a todos.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pessoal, venho aqui hoje para agradecer a atenção e o carinho de todos que vem neste espaço para ler e comentar as postagens. A resposta de vocês está sendo bem legal e sempre fico muito contente com os comentários aqui, no Facebook ou mesmo aqueles feitos pessoalmente a mim. Por enquanto este espaço está sendo pouco atualizado, um pouco por falta de tempo para escrever mas também devido a ainda recente experiência que eu tenho com as turmas. Mesmo assim, desde 28 de abril já foram contabilizados mais de 300 acessos a esta página, o que mostra o interesse que tem gerado em algumas pessoas. Acho que o mais legal de escrever é perceber que as tuas ideias encontram interlocutores. Fiquem atentos que, apesar dos motivos acima explicados, eu vou tentar manter esse espaço sempre ativo.
Se alguém tiver alguma recomendação de textos, reflexões, etc., por favor, me escreva.

Enfim, o retorno desse blog está sendo extremamente positivo e tem conseguido ser um ponto a mais de apoio nos momentos complicados pelos quais eu me deparo.

Muito obrigado a todos! Até a próxima postagem!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Primeiras impressões

Bueno, agora sim! Hoje é sexta-feira e a felicidade é não ter que preparar a aula que eu vou dar amanhã. Isso porque amanhã será sábado e não terá aula!

Nesses últimos dias devido a correria de preparar aula, dar aula, ir e voltar de Guaíba, além de outras tarefas pessoais, fiquei bem ausente de quase tudo: casa, amigos, dissertação e este blog. Há muito queria voltar aqui e escrever um texto sobre as primeiras impressões da escola em que estou trabalhando, mas não queria que fosse algo superficial, queria poder me dedicar a esta análise do local e pessoas que conheci.

Aqui estou, então. Comecemos pelo local. A escola a que me encaminharam foi a Escola Municipal de Ensino Fundamental José Carlos Ferreira. É uma escola situada em um bairro um pouco afastado do centro de Guaíba, no bairro Pedras Brancas. Para vocês terem ideia de quão afastado é, existe um pedágio separando a localidade do centro da cidade. Acho que o pedágio seja, talvez, a causa de uma das principais características do bairro: o isolamento. Não só físico - dos 10km e um pedágio -, como simbólico. Este é um bairro que mescla características rurais com urbanas e que talvez a presença do Estado no cotidiano daquelas pessoas seja a própria escola. Tenho a impressão que muitas vezes eles não se sentem parte de uma cidade, mas tem suas identidades vinculadas aquela localidade. O que não quer dizer que eu vejo isso como um problema, mas que pode ser causa de um dos outros grandes problemas que eu vejo: a carência. E aí é uma carência econômica, apesar de que, por ter características rurais, não me parece que o bairro sofra de problemas econômicos a ponto que possa-se dizer que os seus moradores vivam na miséria. Também não é essa a impressão que os alunos me dão. Ainda assim, é um bairro relativamente pobre. Porém, acho que a forma marcante da carência é aquela da falta de interesse por eles. Por essas razões, o colégio é o centro do bairro. É uma das referências que faz com que eles não se sintam tão isolados/abandonados pelo Estado. E é possível ver isso num misto de admiração e orgulho que a escola representa na comunidade. Conversando com alguns professores, tive a confirmação de algo que eu conjecturava: a comunidade e a escola são muito próximas. Isso me deixou muito feliz, porque dá um significado muito maior a esse espaço. Ao meu ver, a escola não deve ser espaço só dos estudantes, mas de toda a comunidade que a cerca.

Fui muito bem recebido na escola. Seja por seu corpo docente, quanto pela direção e demais funcionários. Entre os estudantes percebia-se aquele alvoroço pela chegada de um professor novo. Alguns deles vieram falar comigo, perguntando para quais turmas eu daria aula e de qual matéria, o que prontamente foi respondido. Confesso que me senti um tanto estranho com o olhar dos alunos. Acho que um pouco de timidez, mas também de um pouco de receio de não cumprir as expectativas que aqueles olhos curiosos depositavam neste novo professor. Pois bem, as minhas turmas serão três do sexto ano e outras três do sétimo (antigas quintas e sextas-séries, respectivamente). Como fui conhecer a escola numa quarta-feira, não tive aula nesse dia. Quarta-feira é o dia em que os professores de História e Geografia não dão aula no município para se dedicarem as atividades extra-classe. Mas no próximo dia (quinta-feira, 3 de maio), eu já encararia duas turmas de sétimo ano. Não vou descrever turma por turma, mas de forma geral são turmas não muito grandes (quem dá aula na rede estadual sabe como pode ser grande o números em uma sala). Entre 20 e 30 alunos em cada sala, sendo as turmas do sétimo ano menores do que as do sexto. As turmas do sexto ano são as mais complicadas de trabalhar. Muitos alunos ainda são bastante imaturos, dispersam com muita facilidade e um bom número apresenta problemas cognitivos moderados a graves. Isso faz com que as aulas sejam sempre muito truncadas. Apesar de ter conversado intensamente com eles na primeira aula sobre o fato de que as aulas dependem tanto deles quanto de mim, foi perceptível a ineficiência desta conversa na formação de um espírito responsável em sala de aula. Muitos não conseguem se concentrar por muito tempo e alguns tem dificuldades em pontos básicos da alfabetização como ler, escrever, somar e diminuir. Além disso, as turmas de sexto ano combinam em uma mesma sala, alunos de 10 anos e alunos de 14 ou 15 anos. Apesar de tudo isso, a imensa maioria deles foi muito receptiva com a minha chegada e foram atenciosos e respeitosos, o que não significa que eu não tive que, insistentemente, pedir para que fizessem silêncio, prestassem atenção ou parassem de frescura.

Já nas turmas de sétimo ano as coisas funcionam um pouco melhor. Já são mais maduros e tem uma noção um pouco maior do que é o espaço escolar. Os problemas cognitivos já não aparecem com tanta frequencia. São turmas menores, o que torna o contato com cada aluno um pouco mais próximo. Eles tem uma consciência maior de quando estão errados. O que não os impedem de gritar, bagunçar ou ficar de arreganho. A diferença é que, quando chamada a atenção, eles se sentem um pouco culpados. Alguns alunos dessas turmas são casos mais complicados, mas é algo que não impede que a aula, como um todo, seja mais tranquila e cumpra seus objetivos. Ontem eu recebi uma grata surpresa. Uma das turmas do sétimo ano me escolheu como professor conselheiro da turma. Fiquei muito feliz com a notícia e hoje eu conversei com eles sobre as responsabilidades que isso me imputava. Acho que eles entenderam que isso vai nos tornar mais próximos e que, em alguns momentos, isso pode não ser legal. Isso porque, no geral, eu que vou ser o responsável por intermediar a relação deles com a escola. E eu que vou fazer a maior parte da cobrança sobre eles. De qualquer forma, acho que essa turma não trará grandes problemas que precisem de conversas mais sérias. Hoje mesmo fizemos um acordo na aula que foi fielmente cumprido por ambas as partes, mas em outro post eu comento sobre isso.

Outra coisa que não falei foi sobre a estrutura da escola. Esse é outro ponto favorável para quem trabalha por lá. A escola é muito boa em termos de estrutura. As salas são bem adequadas ao tamanho das turmas, há uma pequena biblioteca, os banheiros estão bem conservados, há uma sala de informática bem equipada, além de equipamentos audiovisuais bem atualizados permitindo, inclusive, que sejam levados à sala de aula. A sala dos professores, apesar de eu passar pouco tempo lá, é bem confortável. O único porém, e alvo da reclamação de 9 entre cada 10 estudantes, é a situação da quadra de futebol. O estado dela, porém, é explicado pelas obras que estão ocorrendo na escola. Além da reforma da quadra, estão sendo construídas outras salas de aula. Não comentei também sobre outra característica interessante da escola, por não querer dar demasiado destaque para ela: por ficar localizada em uma região afastada do centro, os docentes que lecionam lá recebem um auxílio financeiro referente ao difícil acesso. Como sair de Porto Alegre e ir até Guaíba é difícil para mim, melhor ganhar um pouco mais por isso, né?! Mas talvez esse seja o menor dos atrativos que eu vi nessa escola.

Em geral, as primeiras impressões foram essas. O saldo das dificuldades/qualidades é bem positivo, ao meu ver. Acho que a escola apresenta ótimas condições para o exercício de uma educação de qualidade, que forme cidadãos conscientes e inteligentes. Em outro post eu explico esse comentário mais detalhadamente, mas eu vejo que o grupo de professores que está lá é bem capaz de tornar isso em realidade. Estou chegando, querendo muito acrescentar coisas positivas para essa galera. O que vem em seguida ainda está por ser descoberto.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Rapidinha II

Com essa loucura de começar a lecionar de uma hora pra outra, estou bem sem tempo para escrever um pouco sobre como foi a primeira semana de aulas e dar um retorno para aqueles que acompanham esse blog.

Para não pensarem que eu já abandonei o barco, passo para dizer que entre momentos bons e alguns ruins, eu sobrevivi. Mas acredito que o mais importante é: sobrevivi e tenho cada vez mais convicção de que é possível fazer uma escola diferente.

Seguirei em frente e logo eu volto com novidades.

Fui pra Guaíba!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Rapidinha

Postagem rápida só para não passar em branco. No fim de semana, se der tempo, escrevo sobre as impressões gerais dos primeiros dias na escola. Cuidado, a cena abaixo contém fatos reais:

Questionário para conhecer os estudantes, o interesse deles pelas aulas e pela escola. Última pergunta: "O que você mudaria na escola"...
Um estudante começa a resposta por: "O salário dos professores [...]".

Acho que eu já tenho meu preferido! Só espero que com isso ele não diga que o salário deveria ser menor...

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Uma prévia do que está por vir...

Guaíba, 9h30min, Secretaria Municipal de Educação. Conversa a respeito da escola e horários onde Bruno dará aula.
Bruno diz: Ah, e quando eu começo em sala de aula?
Edi, assessora técnica de História e Geografia: Hoje de tarde tu pode se apresentar na escola e amanhã já começam as aulas.

O pavor percorre o seu corpo inteiro. Concentrado o máximo para disfarçar o nervosismo e para parecer entusiasmado, Bruno exclama, com um sorriso tímido:
- Pô, mas que beleza!

Aguardem, cenas de tensão, nervosismo e angústia no temido "O primeiro dia de um professor".